Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

a rara flor da paixão

uma orquídea, certa noite,
fez raízes na minha alma
restituindo-me sonhos
que há muito eu não sonhava

fez-se luz absoluta
onde nada mais brilhava
restituindo-me fantasias
que há muito eu não ousava

desde então
tudo o mais é silêncio
tudo o mais é escuridão

desde então
sou o vaso onde floresce
a rara flor da paixão.

Sexta-feira, Janeiro 07, 2005

balada para uma bailarina

desde aquela suíte do quebra-nozes
quantos anos você tinha?
treze? quatorze? quinze?
enamorei-me ao som de Tchaikovsky

você nunca me contou se naquela noite
sonhou ou não com ratazanas nem por que
só se sente equilibrada na ponta dos pés
e evita sempre que pode uma conversa séria

tornei-me ratazana das ribaltas e dos proscênios
pelo prazer de me prostrar aos seus pés maltratados
pés deformados pelo esforço do equilíbrio precário
pés que eu lavo, massageio, acarinho e agasalho

a nossa vida tem sido desde então o teatro
entre ratos será até o seu último salto.

Fred Matos
29/05/2004


Quinta-feira, Janeiro 06, 2005

mantra

este frio que cresce no meu plexo
é léxico de uma língua antiga e rara
almenara tatuada na minha pele

a noite é de lã um manto negro
o meu mais cálido agasalho
de saudades e ausências salpicado

nenhuma palavra perfura o aço
nenhuma açoita o tempo
nenhuma funda a eternidade

mas aquele léxico diuturno
forasteira luz do meu vocabulário
penetra cada fresta do manto

e canto um monótono mantra
trama sânscrita desta escrita
negra etérea noite infinita.


Quarta-feira, Janeiro 05, 2005

o verbo

a percepção é farol
devassando mistérios
palavras são silhuetas
luzes bailando nas trevas
o poeta um velho cego
tropeçando substantivos
e o verbo...
ah! o verbo
um tirano sem coroa
sem trono, manto ou cetro
e que, no entanto,
voa.

Terça-feira, Janeiro 04, 2005

Inochi

o sol poente em tua pele
pétala alva tela cetim
tatuada nos meus olhos
com as cores de Matisse
impressas sobre tecido
tal se meus olhos vissem
o que só em sonhos vejo
e na trama meus desejos
traçassem um ideograma:
sob o teto a nossa cama
nos teus seios o meu beijo.

30/12/2004